El Camarón Pinzón y sus pomposas aventuras en Acapulco (xiii)
- Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, Gaspár.
- Oi, desculpe, caro amigo, estava distraído. O que foi?
- Nunca pensei que isso pudesse acontecer.
- Desculpe-me, Pinzón, mas tenho me dispersado facilmente, nos últimos dias.
- Não, Gaspár, não falo de você disperso.
- Desculpe-me mais uma vez, então, mas temo que tenha pegado o bonde andando, como eles dizem!
- Sim, sim, é o mais provável.
- Parece-me também você um tanto quanto ausente, Pinzón, se me permite a observação.
- Sim, amigo Gaspár, sim. Ausentar-se de si, de seus próprios pensamentos e aflições; pode ser essa a única ajuda para não deixar que o incômodo do desapontamento cause algum mal a mais.
- Ao que se refere, Pinzón?
- O desapontamento, Gaspár, a desilusão, a decepção, que tanto furam nossos corações com suas adagas variadas!
- A distração faz-te um poeta, meu amigo!
- Antes assim, Gaspár! Melhor poeta que portador da adaga fria! Triste é não saber como proceder, como e se revidar; se ouvir ou se dar as costas; se aceitar ou se esquecer; se considerar ou se abster-se. Como ir embora sem dar tchau, como deixar tão estimado amigo? Como entender por que faz o que nunca a ele fizemos? Como aceitar que tenha tão impensada atitude? Como relevar seguidos ataques de inédita hostilidade?
- Não posso imaginar, caro amigo Pinzón. Que fizeste a esse amigo?
- Nada de mau que possa imaginar, Gaspár. Sempre o apoiei, sempre desejei o melhor, sempre tentei animá-lo, sempre fui seu confidente, seu ouvinte, sempre estive disposto ao melhor.
- Realmente, é de se admirar!
- De se admirar, se não fosse o mais infeliz dos acontecimentos recentes. O que faço, Gaspár?
- Não saberia dizer, Pinzón, nunca passei por tal infortúnio! Tenho a sorte de contar com a confiança, bom-humor e gentileza dos meus, ao menos tanto quanto posso perceber.
- Perceber, Pinzón! Exato! O que é a percepção, se não um véu de tênue ilusão, que ali está enquanto a alimentamos! Ou quem sabe nem somos nós que a alimentamos, visto que muda a percepção como muda o vento de direção! E qual não é nossa surpresa e abatimento, quando essa mudança nos coloca a barlavento! Estarrecidos, Gaspár, sem palavras ficamos. Incrédulos, tentamos entender o que fizemos, muitas vezes sem resposta.
- Talvez sem nunca ter resposta, Pinzón.

