
- Amigo Gaspár, que cara é essa?
- Ai, caramba…
- Diga-me, Gaspár, nada tema.
- Não é nada de mais, caro Pinzón, é apenas apreensão.
- Em relação a quê?
- Aos altos e baixos da vida, Pinzón.
- Eu sou definitivamente mais alto que você, Gaspár, e quanto a mim, não há nada com o que se preocupar!
- Pinzón, sua capacidade de fazer piadas em momentos inadequados me assombra.
- Desculpe-me, sim? Aceita um Martini?
- Não, obrigado, chega de álcool por hoje.
- Tudo bem, eu entendo. E tudo bem se não quiser me contar sobre o que te aflige.
- Obrigado.
- Gaspár, confesso que também estou um pouco macambúzio por dentro.
- E por que isso, Pinzón?
- Conheci uma camaroa, amigo. Uma camaroa formidável!
- Sorte a sua, Pinzón, camarões devem conhecer camaroas, mesmo. Pior eu, que ainda não recebi denominação alguma, e fico aqui, à mercê da boa vontade do espírito de Lineu resolver baixar no caranguejo mais próximo para me classificar. Que momento único seria esse.
- Não se alongue em seus comentários pessoais, Gaspár, isso faz com que eu perca a linha de pensamento. Estava contando sobre a ímpar senhorita que conheci.
- Claro, prossiga como planejado.
- Ela é maravilhosa, Gaspár. Minhas barbatanas se arrepiam. Volto para casa todo dia repassando o que aconteceu de engraçado ou mesmo coisas sem importância para contar a ela.
- Ela está na sua casa?
- Não, Gaspár, aí é que está. Volto pra casa pensando nisso exatamente porque não posso contar a ela pessoalmente. Tenho que chegar, escrever tudo e colocar numa garrafa.
- Que pena, Pinzón.
- Deveras, amigo Gaspár. E a ansiedade é que está me deixando sorumbático.
- Não se deixe abater, caro Pinzón, continue animado, senão, qual será a graça?
- Nenhuma, presumo eu.
- Pois então! Suas mensagens da garrafa têm que continuar gentis, calorosas e simpáticas! Salpicadas de amor, compreensão e benevolência!
- Como você consegue ser tão inspirado, Gaspár? Você nem me acompanhou no Martini!
- Caro Pinzón, nem parece você, falando! Quando acabar a inspiração, só vai sobrar o sabugo, meu amigo, e isso não pode em hipótese alguma acontecer!
- Gaspár, espero que você se lembre que as melhores frases deveriam continuar sendo minhas, em nossas conversas, afinal, eu sou o personagem principal.
- Claro, não se preocupe, meus lampejos de poesia são fugazes e raros. Não seria capaz de competir com você!
- Melhor assim. De qualquer forma, obrigado pelos conselhos.
- Mas você não planeja conhecê-la de facto?
- É o que mais quero, Gaspár, sem pensar duas vezes!
- Posso dar outra sugestão?
- À vontade.
- Leve uma acelga. Uma vez um ancião amigo do meu padrinho disse que numa de suas viagens pelo Atol de Parthenopea um velho pescador lhe disse que as acelgas encantam de uma maneira singular.
- Uma acelga? Que improvável. Obrigado, Gaspár!
- De nada.