Ahoi, maids! Sim, criançada remelenta, hoje é o grandioso Dia Internacional de Falar Igual Pirata! Como vocês pequenos batráquios fedorentos devem conseguir imaginar com seus bestuntos desprovidos de sagacidade, eu não sou um capitão assim tão à toa, por isso não tive tempo para preparar nenhuma surpresa para vocês, vermes de mousse de romã, porque, além do mais, quem gosta tanto assim de suspresinhas e essas coisas frou-frou só pode ser maricas!
No entanto, tenho uma pequena história para contar, que aconteceu semana passada, aqui mesmo no ensolarado arquipélago das Ilhas Trobriand, nossa gentil morada:
Estava eu fazendo minha caminhada matinal costumeira pelas alvas areias finas da nossa praia, usando nada mais do que minha samba-canção listrada de azul e branco na horizontal, um tanto amarelada pelo tempo, curtindo tranqüilo o sol subtropical e os ventos alísios amenos do agradável horário das 7 e meia, quando, inadvertidamente, pisei em algo pontiagudo, e grande susto tomei! Para minha sorte, não era um algo pontiagudo assim tão periculoso, de modo que não sofri nenhuma perfuração, o que me seria de grande inconveniência, já que então teria que ficar com meu pé enfaixado e, por conseqüência, não poderia usar minhas botas preferidas, nem sentir o prazer da brisa passando por entre meus dedos do pé. De qualquer forma, ainda surpreso, percebi que tinha pisado num distraído e exasperado braquiúro que parecia estar perdido ali na areia. Sinto-me obrigado a reproduzir na íntegra o diálogo que se seguiu:
- Oh! Com mil caranguejos-azuis! Bem, sem ofensas, senhor Siri, peço desculpas por tamanha grosseria com o senhor!
- Não, não, tudo bem, capitão, já não sinto dores por pisões desde minha segunda muda, e isso foi há muito tempo! - disse o Siri, parecendo não entender direito por que tinha dito aquilo.
- Perdão pela minha intromissão, senhor Siri, mas parece-me um pouco atordoado, o que aconteceu?
- Não consigo esconder meu nervosismo, não é? - disse o Siri, juntando seu primeiro par de patas e olhando para a água. - É que o que me aconteceu é deveras instigante, até agora não sou capaz de entender por completo.
- Explique-me melhor, talvez possa ajudá-lo!
- Estava com meu primo seguindo para o porto de Malacostraca, quando as águas ficaram escuras, bolhas surgiram de todos os lados, e uma imensa onda me jogou para cá. Calculo que tenha ficado desacordado por um estofo¹!
- Sim, entendo. E seu primo, não o viu desde então? - disse eu, começando a achar que aquele siri não era apenas exasperado e, sim, desorientado de natureza.
- Aí é que está a parte realmente curiosa da coisa, Capitão! - falou baixo o siri, que agora olhava inquietamente à sua volta, e não conseguia ficar parado, sempre andandinho para os lados. - Meu primo virou um baiacu! - sussurou, aproximando-se de mim.
Realmente, aquele siri só poderia ser louco, ter abusado do rum, ou ter sido isca de algum Pargo Sêmea que deixou-o escapar, causando-lhe danos neurológicos para o resto de sua vida.
Mais uma vez encontrava-me numa situação difícil e, para aumentar as dificuldades, estava em terra, onde normalmente não havia dificuldades, e sim descanso, sombra e misto-quente. Foi então que, do misto-quente, veio-me a inspiração! Corri para o caramanchão, enquanto o Siri gritava perguntando onde eu estava indo, e peguei uma das inúmeras garrafas vazias, um pedaço de papel, e a pena. Quando voltei, o Siri ainda estava dando passos incontroláveis para os lados e, para acalmá-lo disse:
- Eu tenho um plano, Senhor Siri! Vamos escrever uma mensagem para o seu primo e jogá-la na água. Ele certamente vai recebê-la, já que podemos pedir para algum golfinho-de-recados entregá-la para o baicacu mais agitado que ele encontrar, o que, a julgar pelo seu estado, não será difícil de identificar. - O Siri achou a idéia ótima, e logo ditou-me o recado, que achei igualmente memorável, e que segue como me foi dito:
"Querido primo,
Aqui quem vos escreve é seu primo. Desde aquela estranha onda escura repleta de bolhas que não mais o vejo; lembro-me apenas de sua cara redonda e assustada de baiacu sendo arrastada no sentido contrário enquanto eu era desacordado pelas bolhas e jogado para longe. Imagino como deve estar assustado, porque também o fiquei, principalmente quando me vi numa praia estranha sentindo cócegas em meus dez braços.
Sim, primo, não sei o que deve ser pior, inflar incontrolavelmente ou sentir cócegas em seis braços a mais do que se estava acostumado. Ainda não sei o que farei, mas, se receber este recado, e espero que o receba antes de qualquer fatalidade, peça carona ao golfinho-de-recados e peça para que ele o traga de volta à praia de onde saiu, e talvez meu novo amigo, Capitão Wrégous, poderá já ter pensado em algo.
Um deca-abraço do seu primo,
Antenor Vallés"
Sim, crianças, eu também fiquei tão surpreso quanto vocês quando ouvi o nome do Siri! 'Antenor Vallés'! Aquilo não podia ser verdade! Um dos maiores chefes do terceiro oceano, em forma de siri? Não conseguia pensar em nada mais inacreditável do que aquilo, além da Baleia-de-Velocípedes que conhecera no outono passado.
Como não tínhamos idéia de como reverter a situação, e obrigados a esperar por notícias do primo baiacu, minha única sugestão foi que Antenor Vallés, o Siri, aceitasse ser meu hóspde, e convidei-o para comandar a cozinha do nosso humilde restaurante a beira-mar enquanto lhe fosse aprazível. Até rebatizamos o estabelecimento de 'O Portunidae', já que aquela era uma oportunidade única e felizmente estranha, e porque adoramos trocadilhos.
Um ótimo Dia Internacional de Falar Igual Pirata para vocês!
¹ Estofo é o período entre duas marés, em que não há alteração do nível do mar.
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